OS VILÕES, OS ISENTÕES, OS LOUCOS E OS HERÓIS.

 

Inconfidente, republicano, contestador, ele defendeu com bravura a liberdade, foi traído por um “amigo”, não entregou os companheiros do movimento libertário, caminhou com altivez até a forca e aceitou a morte em nome de um ideal, de um povo e de um estado independente.

O alferes Joaquim José da Silva Xavier - Tiradentes -, além de líder da Inconfidência Mineira, de 1789, movimento de insatisfação contra a Coroa Portuguesa que cobrava altos impostos dos brasileiros, foi um protomártir e herói do Brasil. Atuou na defesa da integridade republicana, defendeu com grandeza os princípios da liberdade e morreu por um magnânimo ideal ético, social e político.

Tiradentes foi enforcado em 21 de abril de 1792. Passados 234 anos de seu enforcamento no Rio de Janeiro, onde se encontrava à época, ele continua sendo até hoje um marco de idolatria por parte da maioria dos brasileiros. Seu perfil humano e resolutivo ficou para sempre gravado na história e na memória de Minas e do Brasil.

O preço que o herói e mártir pagou foi muito alto. Tiradentes pagou com a vida, aos 45 anos, simplesmente porque defendia com firmeza seus ideais libertários, republicanos e anticolonialistas. A morte levou embora o inconfidente maior, mas não calou a voz dos precursores da Independência do Brasil, que aconteceria 30 anos depois.

Tiradentes teve seu corpo completamente esquartejado, sua família infamada, seus bens confiscados, sua casa demolida e o solo salgado e manchado com seu sangue. Mas a crueldade e a covardia dos inimigos não apagaram o seu nome. E ele, cem anos depois, caiu nos braços da glória, sendo redescoberto após a Proclamação da República, como herói nacional e símbolo de resistência.

A homenagem a Tiradentes, patrono da nação brasileira, visa evidenciar que a sentença condenatória de Joaquim José da Silva Xavier não é labéu que lhe infame a memória, pois é reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos.

Se para os vilões e isentões ele foi um louco, sem rosto, complexo e contraditório; para os cidadãos de bem ele foi um herói, líder corajoso, mártir e protomártir. E os heróis são exatamente assim: símbolos fortes e poderosos, pontos de referência e de identificação coletiva, instrumentos capazes de forjar atitudes firmes e ações arrojadas.     

E justamente por essas razões sua luta patriótica e sua morte cruel não podem significar apenas fatos passados. Se Tiradentes fosse vivo, apenas para argumentar, outras batalhas ele enfrentaria na defesa do povo: erradicação da miséria, redução de juros e preços elevados, corte de impostos e gastos públicos, fim da censura e do autoritarismo, extinção dos privilégios, restabelecimento das amplas liberdades de expressão, opinião e manifestação. E, principalmente, ele defenderia bravamente as causas sociais essenciais, as quais abraçaria em nome de todos os brasileiros, loucos e heróis, naturalmente.   

Wilson Campos (Advogado/Especialista com atuação nas áreas de Direito Tributário, Trabalhista, Cível e Ambiental/ Presidente da Comissão de Defesa da Cidadania e dos Interesses Coletivos da Sociedade, da OAB/MG, de 2013 a 2021/Delegado de Prerrogativas da OAB/MG, de 2019 a 2021).

(Este artigo mereceu publicação do Jornal O TEMPO, edição de quinta-feira, 23 de abril de 2026, pág. 19. Coluna de Wilson Campos).  

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